Candidato à prefeitura de Porto Alegre, João Derly aposta na economia local para superar crise

Candidato à prefeitura de Porto Alegre, João Derly aposta na economia local para superar crise

Segundo entrevistado da série com os candidatos à prefeitura de Porto Alegre, João Derly, do Republicanos, aposta no fortalecimento da economia local e no potencial turístico da cidade para superar a crise econômica causada pela pandemia de coronavírus na Capital. Para Derly, esse é o principal desafio que vai enfrentar em 2021, caso vença a eleição municipal.A ideia é retomar a economia através do estímulo dos pequenos negócios. “Isso fortalece a economia local, evita grandes deslocamentos, gera empregos e renda, e faz com que a roda gire dentro dos bairros onde vivem as pessoas. Tudo isso é uma cadeia muito forte que a gente não tem utilizado em Porto Alegre.”Quanto ao turismo, uma das estratégias de João Derly – que já foi secretário estadual do Esporte e Lazer no governo Eduardo Leite (PSDB) – é atrair grandes eventos esportivos. “Temos um potencial enorme para esportes náuticos”, exemplifica, fazendo menção ao Guaíba. E complementa: “se a gente traz para a Capital um evento de esporte, como os Jogos Escolares da Juventude, pode-se gerar em torno de 34 mil hospedagens (na rede hoteleira), sem contar a alimentação e outros setores.Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, João Derly apresenta ainda os três pilares que considera importantes para melhorar a rede municipal de ensino: o diálogo na formação do plano de educação, o reforço da segurança dentro e fora das escolas e a implementação de atividades no contraturno escolar. Ele explicou ainda que investimentos em tecnologia e desburocratização da legislação tributária podem alavancar a arrecadação municipal.

Jornal do Comércio – Caso vença a eleição, qual será o principal desafio na prefeitura de Porto Alegre em 2021?
João Derly – O grande desafio de quem assumir a prefeitura de Porto Alegre no ano de 2021 será a questão da retomada econômica, porque hoje estamos vivendo uma pandemia que tem acarretado diversas dificuldades. Temos o auxílio emergencial, o auxílio desemprego, o aumento do desemprego, muita informalidade. A gente vai ter uma noção mais real do buraco no ano que vem. Por isso, o grande desafio de quem for administrar a cidade vai ser adotar a estratégia adequada para a retomada econômica, além dos grandes desafios de problemas que se arrastam durante muito tempo em Porto Alegre.

JC – Que medidas adotaria para estimular a retomada econômica?
Derly – Planejamos fortalecer a economia, o empreendedor local. Vou citar um exemplo que conheci no Morro da Cruz. Lá, o Michel formou uma empresa de publicidade para fortalecer a economia local, ajudando aquele morador que tinha o desejo de empreender dentro da própria comunidade. Então, a dona Maria tem uma padaria na comunidade, mas não sabe como divulgar. Às vezes, os moradores descem o morro ou pegam um aplicativo para ir a um supermercado comprar pão, sendo que ali (na comunidade) tem o pãozinho quente da dona Maria. Então, a empresa do Michel começou a fazer peças de publicidade, que giram em grupos (de Whatsapp) e redes sociais dos moradores, para divulgar os empreendimentos da própria comunidade. Isso fortalece a economia local, evita grandes deslocamentos, gera empregos e renda, e faz com que a roda gire dentro dos locais onde as pessoas vivem. As pessoas acabam desenvolvendo um relacionamento, um vínculo com os vizinhos. Tudo isso é uma cadeia muito forte que não se tem utilizado em Porto Alegre. Um outro ponto importante é o desenvolvimento através do turismo.


JC – Onde avalia que há potencial turístico na Capital?
Derly – Temos um potencial enorme para esportes náuticos. Quando fui secretário estadual de Esportes e Lazer, tinha marcado para o final de março uma reunião com todas as federações esportivas e o Sindilojas (Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre), Sindha (Sindicato de Hospedagem e Alimentação de Porto Alegre e Região) e outros representantes da economia local. O encontro era para que as federações conhecessem um pouco mais de Porto Alegre e pensassem nos eventos esportivos que poderiam trazer para cá. Apesar do enorme potencial para esportes náuticos, hoje os clubes acabam fazendo seu evento por iniciativa própria, com seus patrocinadores, com ajuda do Comitê Brasileiro de Clubes, com participação bem pequena do Estado e da cidade. Para se ter uma noção, se a gente traz para a Capital um evento de esporte, como os Jogos Escolares da Juventude, pode-se gerar em torno de 34 mil hospedagens, sem contar a alimentação. Um estudo da Confederação Brasileira do Desporto Universitário (CBDU) indica que cada atleta que vem para um evento nacional deixa em torno de R$ 600,00 ao dia na cidade-sede. Entram nessa conta o serviço de aplicativo, táxi, rede hoteleira, restaurante etc. Enfim, mexe com toda a cadeia produtiva. Então, temos que ajeitar isso, para fomentar os eventos tanto na parte esportiva quanto na parte cultural.

JC – O que planeja para a cultura?
Derly – Entrando na parte cultural, os festivais de Porto Alegre têm sumido. E eles são muito importantes, porque movimentam uma cadeia produtiva de eventos, que está bem machucada e não é muito vista pela prefeitura. Hoje, temos a celebração do Saint Patrick’s Day, por exemplo, devido à iniciativa privada, sem nenhum incentivo da prefeitura. No Quarto Distrito, existem 27 cervejarias artesanais. No Saint Patrick’s Day, tem que deixar que essas cervejarias produzam e mostrem os seus produtos em Porto Alegre. É uma coisa simples, fácil de fazer e que pode potencializar todas as cervejarias na região. Outra questão é o tradicionalismo. Cerca de 80% de quem desce no aeroporto Salgado Filho vai para a Serra Gaúcha. Esses turistas sobem a Serra, porque querem tomar um chimarrão, saber como ele é feito, conhecer um galpão. Mas, aqui em Porto Alegre, temos um grande número de galpões, que poderiam formar uma rede de visitas disponível aos turistas. Os visitantes poderiam experimentar uma costela bem feita no fogo de chão, tomar um mate, conhecer nossa cultura. Com isso, a gente fortalece a cultura das nossas crianças, porque esses galpões também fazem um trabalho muito bonito com a dança e isso seria exposto aos turistas. Outra coisa, por que não conhecer a periferia da cidade? No Rio de Janeiro, as pessoas querem conhecer as favelas. Aqui na cidade, o Morro da Cruz, o Morro da Polícia têm aquela vistas sensacionais. Mas como levar o turista se não tem segurança lá? Se não tem um banheiro, um restaurante, um barzinho para comprar uma água? É aí que entram as parcerias. A gestão de Porto Alegre tem que ser a mediadora de todas essas frentes.

JC – O senhor falou bastante do esporte, até porque tem uma relação íntima com ele. Um tema correlato é a educação. O que pensa para essa área?
Derly – Saiu a nota do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) da cidade de Porto Alegre. Estamos em vigésimo quarto (entre as 26 capitais brasileiras). Isso é preocupante. E isso não é fruto só de uma gestão, mas de várias gestões que acabam prejudicando o nosso ensino. Queremos desenvolver a educação de Porto Alegre através de três pilares. Primeiro, temos que iniciar pelo plano municipal, porque é fundamental ter um projeto de ação, discutido com aqueles que mais conhecem de educação, que são os professores, a sociedade civil, entidades universitárias e toda a comunidade envolvida com as escolas. De quase 100 escolas, cinco atingiram a nota média do Ideb. Isso só mostra que é possível (melhorar o ensino). Mas é preciso ter paciência para conversar sobre os problemas, para conseguirmos fazer um plano de ação a curto, médio e longo prazo para o município de Porto Alegre. A prefeitura paga um salário melhor aos professores (da rede municipal), mas peca ao não proporcionar qualificação. Então, a gente já tem iniciativas, com o Comitê Paraolímpico Brasileiro, para trazer a questão da inclusão, por exemplo. O comitê pode prestar esse serviço aos professores para a gente ajudar na qualificação deles. Muitas vezes falta infraestrutura também nas escolas.

JC – E o segundo pilar?
Derly – O segundo eixo é a segurança nas escolas. Hoje o grande problema é que o tráfico de drogas ronda as escolas. Muitas vezes, o traficante acaba dentro dela. Como um pai vai se sentir seguro de deixar o seu filho lá? Que tipo de aprendizagem essa criança vai ter, convivendo com coisas ilícitas que podem afetar sua formação. Isso sem falar da insegurança que os professores acabam tendo dentro da sala de aula, porque eles são confrontados pela violência (dos traficantes). Então, apesar de termos uma estrutura melhor (na rede municipal), enfrentamos esse problema da violência. Precisamos trabalhar pra resolver isso. Como deputado federal, destinei quase R$ 500 mil para a Guarda Municipal adquirir sete viaturas para fazer a patrulha nas escolas.

JC – E o terceiro?
Derly – O terceiro pilar é o contraturno escolar (escola de tempo integral). É fundamental a escola disponibilizar atividades no turno inverso ao regular. Estudei em um colégio com contraturno, o que me permitiu conhecer o esporte. Vários amigos lá do Morro Santana, onde cresci, perderam suas vidas diante da violência e do tráfico de drogas. Aqui em Porto Alegre, temos um grande problema: foi cortada grande parte das oficinas (oferecidas no contraturno da rede municipal de ensino). Por causa disso, a cidade está perdendo os talentos esportivos, precarizando a formação das crianças, deixando escapar grande parte dos alunos que poderia ser detectada com altas habilidades. Hoje, temos apenas dois polos para identificar altas habilidades – um na área de matemática e outro na área de linguística – entre os cerca de 70 mil alunos da rede municipal. Temos só 27 alunos detectados nessas duas áreas, sendo que existem oito habilidades a serem detectadas. Um estudo da Associação Brasileira para Altas Habilidades/Superdotados estima que de 5% a 7% das crianças possuem algum tipo de alta habilidade. Então, a gente está perdendo muitos talentos, seja na música, matemática, linguística, esporte etc. O contraturno é essencial para a gente descobrir esses talentos e ajudar na formação deles.

JC – Quanto seria necessário para implementar esses três pilares na educação? Onde pretende buscar verbas?
Derly – A grande maioria dessas ações não requer grandes recursos. Na questão do contraturno, por exemplo, temos muitos professores da própria rede que podem ajudar no desenvolvimento das oficinas. Isso até já ocorreu no passado, mas esses (educadores) foram colocados novamente nas salas de aula. De qualquer forma, o grande segredo para captar recursos é tecnologia. O recurso que precisamos para uma educação mais eficaz está dentro das finanças do município. Hoje existem softwares bem desenvolvidos para que a gente possa melhorar a capacidade de captação dos impostos da cidade. Isso não é aumento de impostos, de maneira nenhuma. Outro problema é que quem quer empreender tem uma dificuldade enorme. Ouvi relatos de grandes empresários que não entendem as mudanças (no sistema de impostos), a cada troca de governo, que troca uma secretaria para lá, troca outra para cá. Os empreendedores ficam perdidos. Precisamos facilitar os empreendimentos, porque isso volta em impostos para a cidade. A iniciativa privada tem que ser parceira do setor público. Então, o grande segredo é, primeiro, buscar recursos através da tecnologia, com inteligência, para melhorar a capacidade de arrecadação do município. Ao mesmo tempo, temos que fazer com que os parceiros possam sentir confiança de que o poder público está dialogando corretamente. Além disso, também é necessário um comitê gestor que seja resolutivo, para que possa trazer soluções em conjunto, com a conversa. É mais demorado? É mais difícil? Pode ser. Mas as coisas vão acontecer bem mais amarradas, mais assertivas do que simplesmente mandar para a Câmara de Vereadores um projeto que saiu da cabeça de duas ou três pessoas.

Perfil

João Derly de Oliveira Nunes Júnior nasceu em Porto Alegre em 2 de junho de 1981. Cresceu e estudou na Capital, residindo durante parte da sua infância no Morro Santana e outra parte no Rio Branco. Foi atleta de judô da Sociedade de Ginástica Porto Alegre (Sogipa). Em 2005 e 2007, conquistou as medalhas de ouro no Campeonato Mundial de Judô, realizados respectivamente na cidade do Cairo (Egito) e no Rio de Janeiro. Deixou de competir como judoca em 2012, quando foi convidado por Manuela d’Ávila para se filiar ao PCdoB e concorrer a vereador da Capital. Foi o segundo parlamentar mais votado naquela eleição, com mais de 14 mil votos. Em 2014, se elegeu deputado federal com 106.991 votos. Em setembro de 2015, desfiliou-se do PCdoB para entrar na Rede Sustentabilidade, alegando que não concordava com o apoio ao governo da então presidente Dilma Rousseff (PT). Em 2016, votou a favor do impeachment de Dilma. Em 2018, filiou-se ao PRB (que hoje se chama Republicanos). Em 2019, assumiu a Secretaria Estadual de Esporte e Lazer, cargo que deixou em junho de 2020. Pela primeira vez, é candidato à prefeitura de Porto Alegre.

Fonte: Jornal do Comércio

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